{"id":310,"date":"2026-02-27T22:25:53","date_gmt":"2026-02-27T22:25:53","guid":{"rendered":"https:\/\/altacomunicacaodigital.com.br\/joaopedropadua\/2026\/02\/27\/o-que-precisamos-aprender-com-o-sucesso-de-nova-iorque-contra-o-crime\/"},"modified":"2026-03-11T19:04:40","modified_gmt":"2026-03-11T19:04:40","slug":"o-que-precisamos-aprender-com-o-sucesso-de-nova-iorque-contra-o-crime","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/altacomunicacaodigital.com.br\/joaopedropadua\/2026\/02\/27\/o-que-precisamos-aprender-com-o-sucesso-de-nova-iorque-contra-o-crime\/","title":{"rendered":"O que precisamos aprender com o sucesso de Nova Iorque contra o crime?"},"content":{"rendered":"<div class=\"captioned-image-container\">\n<figure><a class=\"image-link image2 is-viewable-img\" target=\"_blank\" href=\"https:\/\/substackcdn.com\/image\/fetch\/$s_!I_5S!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep\/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F66a7e239-9fcf-4400-92ca-090302e0d5f9_1024x1024.png\" data-component-name=\"Image2ToDOM\">\n<div class=\"image2-inset\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/substackcdn.com\/image\/fetch\/$s_!I_5S!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep\/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F66a7e239-9fcf-4400-92ca-090302e0d5f9_1024x1024.png\" width=\"1024\" height=\"1024\" data-attrs=\"{&quot;src&quot;:&quot;https:\/\/substack-post-media.s3.amazonaws.com\/public\/images\/66a7e239-9fcf-4400-92ca-090302e0d5f9_1024x1024.png&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:1024,&quot;width&quot;:1024,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:2289669,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image\/png&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https:\/\/radicaldecentro.substack.com\/i\/189400517?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F66a7e239-9fcf-4400-92ca-090302e0d5f9_1024x1024.png&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}\" class=\"sizing-normal\" alt=\"\" \/>\n<div class=\"image-link-expand\">\n<div class=\"pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset\"><button type=\"button\" class=\"pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image\"><title><\/title><\/button><button type=\"button\" class=\"pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image\"><\/button><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><\/p><\/a><figcaption class=\"image-caption\">Criado com o Nano Banana\u00ae <\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Em 1990, Nova Iorque registrou <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Crime_in_New_York_City\">2.245 homic\u00eddios<\/a>. Usando a m\u00e9trica internacional para a viol\u00eancia, isso equivale a <a href=\"https:\/\/www.vitalcitynyc.org\/dataviz\/new-york-city-homicides-and-homicide-rates-1800-2023\">30,7 homic\u00eddios por 100 mil habitantes<\/a>. Para te dar perspectiva, <a href=\"https:\/\/forumseguranca.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/anuario-2025.pdf\">a taxa do Brasil em 2024 foi <\/a>de 20,8; a do Rio de Janeiro, Estado de onde escrevo, foi de 22,1.<\/p>\n<p>Trinta mortes violentas por 100 mil pessoas, numa cidade que, no imagin\u00e1rio popular, sempre foi sin\u00f4nimo de cosmopolitismo e oportunidade, al\u00e9m de sede da ONU, era uma enormidade. Crian\u00e7as atingidas por balas perdidas, acertos de conta entre traficantes de crack, assaltos que terminavam em morte por causa de um rel\u00f3gio ou um par de t\u00eanis. Na pr\u00e1tica, uma das cidades mais perigosas do mundo desenvolvido.<\/p>\n<p>Para quem anda hoje tranquilamente pelas ruas do Brooklyn, um bairro de Nova Iorque que era sin\u00f4nimo de viol\u00eancia, isso parece filme de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Mas a Nova Iorque no fim dos anos 1980 e in\u00edcio dos 1990 era o cen\u00e1rio que alimentou uma gera\u00e7\u00e3o inteira de filmes, s\u00e9ries e m\u00fasicas sobre viol\u00eancia e desordem urbana \u2014 de <em>Taxi Driver<\/em> (que \u00e9 de 1976, mas retrata bem a atmosfera) ao <em>crack<\/em> e <em>gangsta rap<\/em> dos anos 1990 &#8212; que geraram inclusive a sua contribui\u00e7\u00e3o de [homic\u00eddios entre artistas famosos](<a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/List_of_murdered_hip-hop_musicians\">List of murdered hip-hop musicians &#8211; Wikipedia<\/a>. At\u00e9 filmes de com\u00e9dia, como <em>Esqueceram de Mim 2,<\/em> tinham cenas que mostravam como ningu\u00e9m andava no <em>Central Park<\/em> de noite.<\/p>\n<p>O metr\u00f4 era infestado de picha\u00e7\u00f5es e de crime. Bairros inteiros \u2014 o South Bronx, Brownsville, East New York \u2014 eram zonas onde a pol\u00edcia, na melhor das hip\u00f3teses, tentava conter o caos.<\/p>\n<p>Nova Iorque, a capital do mundo, a cidade que nunca dorme, era o sin\u00f4nimo da decad\u00eancia e da criminalidade urbanas.<\/p>\n<p>Corta para 2017 e a taxa de homic\u00eddios de Nova Iorque <a href=\"https:\/\/www.vitalcitynyc.org\/dataviz\/new-york-city-homicides-and-homicide-rates-1800-2023\">estava em 3,4 por 100 mil habitantes. Em 2018, 3,5<\/a>. De 30,7 para 3,4 \u2014 uma <strong>queda de quase 90%<\/strong>. A cidade voltou a <a href=\"https:\/\/www.vitalcitynyc.org\/articles\/crime-in-new-york-city-trends-statistics\">patamares que n\u00e3o via desde os anos 1950<\/a>, quando tinha metade da popula\u00e7\u00e3o flutuante que tem hoje. E n\u00e3o, isso n\u00e3o \u00e9 um erro de digita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que aconteceu?<\/p>\n<p>Bem, se voc\u00ea perguntar \u00e0 maioria das pessoas que acompanham o tema \u2014 e especialmente se perguntar a policiais \u2014 a resposta vai incluir uma palavra: <em>Compstat<\/em>. Abrevia\u00e7\u00e3o de <em>Computer Statistics<\/em> (ou <em>Comparative Statistics<\/em>, dependendo de quem conta a hist\u00f3ria), o Compstat \u00e9 um sistema de gest\u00e3o policial <a href=\"https:\/\/ccnmtl.columbia.edu\/projects\/caseconsortium\/casestudies\/127\/casestudy\/www\/layout\/case_id_127_id_886.html\">criado em 1994 pelo comiss\u00e1rio William Bratton, chefe da Pol\u00edcia de Nova Iorque, e seu assessor Jack Maple<\/a>, na gest\u00e3o do prefeito Rudy Giuliani. A ideia era \u2014 para a \u00e9poca \u2014 quase revolucion\u00e1ria: usar dados de criminalidade atualizados diariamente para orientar a a\u00e7\u00e3o policial. N\u00e3o mais esperar o relat\u00f3rio trimestral para saber onde o crime estava concentrado; agora, os comandantes de cada distrito policial eram convocados a reuni\u00f5es regulares \u2014 duas vezes por semana \u2014 onde tinham que explicar o que estava acontecendo na sua \u00e1rea e o que estavam fazendo a respeito. Com dados. Em tempo real. Sob press\u00e3o.<\/p>\n<p>A est\u00f3ria \u00e9 boa. Na verdade, \u00e9 \u00f3tima \u2014 boa o suficiente para ter se tornado lenda. Maple, o sujeito que <a href=\"https:\/\/bja.ojp.gov\/sites\/g\/files\/xyckuh186\/files\/Publications\/PERF-Compstat.pdf\">rabiscou os quatro princ\u00edpios do sistema num guardanapo no restaurante Elaine\u2019s (<\/a><em><a href=\"https:\/\/bja.ojp.gov\/sites\/g\/files\/xyckuh186\/files\/Publications\/PERF-Compstat.pdf\">accurate, timely intelligence; rapid deployment; effective tactics; relentless follow-up and assessment<\/a><\/em><a href=\"https:\/\/bja.ojp.gov\/sites\/g\/files\/xyckuh186\/files\/Publications\/PERF-Compstat.pdf\">)<\/a>, morreu jovem, de c\u00e2ncer, em 2001, e virou uma esp\u00e9cie de her\u00f3i p\u00f3stumo do policiamento orientado por dados. A sala do Compstat no quartel-general da NYPD <a href=\"https:\/\/www.cbsnews.com\/newyork\/news\/nypd-dedicates-compstat-room-to-creator-jack-maple\/\">leva o seu nome<\/a>.<\/p>\n<p>Mas \u2014 e aqui come\u00e7a o que realmente me interessa neste artigo \u2014 a pergunta que precisamos fazer n\u00e3o \u00e9 se o Compstat \u00e9 uma boa ideia. Isso \u00e9 \u00f3bvio. Certamente \u00e9 melhor gerir uma organiza\u00e7\u00e3o policial com dados atualizados do que sem eles. A pergunta \u00e9 outra: <em>quanto<\/em> do decl\u00ednio da viol\u00eancia em Nova Iorque o Compstat realmente explica?<\/p>\n<p>Porque, curiosamente, quando olhamos os dados com mais cuidado \u2014 como fez o soci\u00f3logo David Greenberg, da <em>New York University<\/em>, numa <a href=\"https:\/\/www.nyu.edu\/about\/news-publications\/news\/2013\/february\/1990s-drop-in-nyc-crime-not-due-to-compstat-misdemeanor-arrests-study-finds.html\">an\u00e1lise publicada em 2013<\/a> \u2014 a queda na criminalidade violenta e patrimonial em Nova Iorque j\u00e1 estava em curso <em>antes<\/em> da implementa\u00e7\u00e3o do Compstat. O sistema foi adotado em 1994; a queda come\u00e7ou por volta de 1991. Al\u00e9m disso, a redu\u00e7\u00e3o do crime em Nova Iorque foi maior que a m\u00e9dia nacional, \u00e9 verdade \u2014 a viol\u00eancia <a href=\"https:\/\/www.nber.org\/digest\/jan03\/what-reduced-crime-new-york-city\">caiu 56% na cidade contra 28% no pa\u00eds<\/a> como um todo \u2014, mas tamb\u00e9m \u00e9 verdade que o n\u00edvel inicial de viol\u00eancia em Nova Iorque j\u00e1 era maior do que o do resto do pa\u00eds. O pa\u00eds <em>inteiro<\/em> estava ficando menos violento. N\u00e3o s\u00f3 Nova Iorque. N\u00e3o s\u00f3 as cidades que adotaram o Compstat.<\/p>\n<p>O que isso sugere \u00e9 que o Compstat \u00e9 uma ferramenta \u00fatil para a organiza\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o policial. Mas, no esquema geral da viol\u00eancia urbana, seu efeito \u00e9 modesto. E o mais relevante para n\u00f3s, no Brasil: os munic\u00edpios t\u00eam \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o ferramentas muito mais poderosas para contribuir com a seguran\u00e7a p\u00fablica do que a mera emula\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnicas policiais. Ferramentas que quase nenhum prefeito utiliza, ou , ao menos, n\u00e3o utiliza <strong>como<\/strong> pol\u00edtica de seguran\u00e7a p\u00fablica.<\/p>\n<p>Porque a vis\u00e3o dominante sobre seguran\u00e7a p\u00fablica \u00e9, ainda, fundamentalmente equivocada.<\/p>\n<div class=\"subscription-widget-wrap-editor\" data-attrs=\"{&quot;url&quot;:&quot;https:\/\/radicaldecentro.substack.com\/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}\" data-component-name=\"SubscribeWidgetToDOM\">\n<div class=\"subscription-widget show-subscribe\">\n<div class=\"preamble\">\n<p class=\"cta-caption\">Obrigado por ler Radical de Centro! 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Mas aquela descri\u00e7\u00e3o que dei acima, de que zonas inteiras da cidade eram lugares \u201conde a pol\u00edcia, na melhor das hip\u00f3teses, tentava conter o caos\u201d, soa lamentavelmente familiar para muito\/as de n\u00f3s que vivemos em grandes cidades no Brasil.<\/p>\n<p>O tema da seguran\u00e7a p\u00fablica \u00e9 um dos que mais preocupam todo\/as o\/as brasileiro\/as e est\u00e1 fadado a ser, talvez, <strong>o tema<\/strong> central das campanhas eleitorais para Presidente e Governadore\/as este ano.<\/p>\n<p>Percebendo isso, pr\u00e9-candidato\/as a esses cargos come\u00e7aram logo cedo a se mover para mostrar que est\u00e3o trabalhando a pleno vapor para, finalmente, resolver o problema da seguran\u00e7a p\u00fablica nos seus locais.<\/p>\n<p>No meu Estado do Rio de Janeiro, tanto o atual Governador, Cl\u00e1udio Castro, que busca fazer seu sucessor e se eleger senador, quanto o Prefeito da Capital, Eduardo Paes, pr\u00e9-candidato e um dos favoritos ao Governo do Estado, j\u00e1 produzem conte\u00fado para disputar quem est\u00e1 mais avan\u00e7ado no caminho dessa solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Castro j\u00e1 anunciou que apoiar\u00e1 o Deputado Estadual Douglas Ruas para sua sucess\u00e3o. E Ruas, por sua vez, j\u00e1 anunciou que <a href=\"https:\/\/temporealrj.com\/curi-fara-programa-de-seguranca-douglas\/\">contar\u00e1 com o atual Secret\u00e1rio de Estado de Pol\u00edcia Civil, Felipe Curi<\/a>, para chefiar seu programa de governo no tema.<\/p>\n<p>Paes, por sua vez, <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/reels\/DVKFd5TiRHT\/\">lan\u00e7ou recentemente v\u00eddeo nas redes sociais<\/a>, comemorando o t\u00e9rmino da implanta\u00e7\u00e3o do Compstat como ferramenta b\u00e1sica de apoio \u00e0 atua\u00e7\u00e3o da Guarda Municipal na repress\u00e3o a roubos e furtos na cidade do Rio de Janeiro. Segundo ele, \u201co modelo Compstat alcan\u00e7ou resultados sem precedentes, reduzindo drasticamente os delitos urbanos.\u201d<\/p>\n<p>Soa familiar?<\/p>\n<div>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p>Anunciar um policial como refer\u00eancia na pol\u00edtica de seguran\u00e7a e anunciar um modelo de gest\u00e3o de policiamento orientado a dados podem parecer refletir ideias muito diferentes sobre seguran\u00e7a p\u00fablica. Por\u00e9m, na verdade, as duas partem da mesma assun\u00e7\u00e3o: pol\u00edtica de seguran\u00e7a p\u00fablica e diminui\u00e7\u00e3o da criminalidade urbana &#8212; especialmente a criminalidade violenta &#8212; come\u00e7a com pol\u00edcia e o policiamento.<\/p>\n<p>Isso pode parece \u00f3bvio. Mas a evid\u00eancia que se acumula mostra que isso \u00e9 falso.<\/p>\n<p>Antes de jogar uns estudos em cima de voc\u00ea para mostrar isso, vamos come\u00e7ar pensando tamb\u00e9m no n\u00edvel mais intuitivo. Se eu te perguntar agora qual \u00e9 a grande cidade mais segura do mundo, voc\u00ea provavelmente n\u00e3o vai saber me responder. Tudo bem, eu tamb\u00e9m n\u00e3o sabia. Tive de procurar. Fora que diferentes m\u00e9tricas podem gerar resultados diferentes.<\/p>\n<p>Vamos fazer, ent\u00e3o, uma pergunta diferente: em quais pa\u00edses ou regi\u00f5es voc\u00ea sup\u00f5e que essas cidades est\u00e3o? Aqui, provavelmente voc\u00ea chegou mais perto. Voc\u00ea deve ter pensado algo como Jap\u00e3o ou Europa. E voc\u00ea ter\u00e1 acertado, na maior parte. De acordo com <a href=\"https:\/\/www.movehub.com\/advice\/worlds-safest-cities\/\">um ranking internacional<\/a>, a cidade com menor taxa de mortes violentas no mundo em 2023 foi Singapura, seguida de T\u00f3quio, Hong Kong, Berlim e Sydney. Na lista das 10 cidades com menores taxas tamb\u00e9m est\u00e3o Londres (6\u00aa), Amsterd\u00e3 (8\u00aa) e Paris (9\u00aa).<\/p>\n<p>S\u00e3o cidades diferentes, mas elas t\u00eam algo em comum: nenhuma delas \u00e9 conhecida por seu sistema revolucion\u00e1rio de policiamento. Ou por seu Sistema de Justi\u00e7a Criminal particularmente punitivo: se compararmos as taxas de viol\u00eancia dessas cidades, com a <a href=\"https:\/\/www.prisonstudies.org\/highest-to-lowest\/prison_population_rate?field_region_taxonomy_tid=All\">popula\u00e7\u00e3o prisional <\/a><em><a href=\"https:\/\/www.prisonstudies.org\/highest-to-lowest\/prison_population_rate?field_region_taxonomy_tid=All\">per capita<\/a><\/em><a href=\"https:\/\/www.prisonstudies.org\/highest-to-lowest\/prison_population_rate?field_region_taxonomy_tid=All\"> dos pa\u00edses onde essas cidades est\u00e3o<\/a>, veremos que a correla\u00e7\u00e3o \u00e9 quase inversa. Singapura \u00e9 o n\u00famero 93 no ranking prisional (que tem cerca de 220 pa\u00edses). Jap\u00e3o \u00e9 o n\u00famero 216: est\u00e1 no top 10 de menor popula\u00e7\u00e3o prisional. Hong Kong \u00e9 119; Alemanha \u00e9 175; Austr\u00e1lia, 97; Inglaterra, 120. Posso parar por aqui, porque voc\u00ea entendeu a l\u00f3gica. Pa\u00edses com cidades mais seguras tendem a estar entre os que menos prendem pessoas.<\/p>\n<p>Mesmo que fiquemos apenas nos EUA, onde o Compstat nasceu, a atua\u00e7\u00e3o das pol\u00edcias e o pr\u00f3prio sistema tiveram, como eu disse acima, apenas um efeito marginal, na melhor das hip\u00f3teses, na redu\u00e7\u00e3o da criminalidade massiva observada no pa\u00eds inteiro, a partir do fim do s\u00e9c. XX.<\/p>\n<p>Exatamente porque a redu\u00e7\u00e3o foi em todo o pa\u00eds, explica\u00e7\u00f5es em uma cidade n\u00e3o podem responder pela maior parte do efeito. Outras explica\u00e7\u00f5es, mais gerais, existem e s\u00e3o as que mais correspondem aos melhores dados de que dispomos.<\/p>\n<p>Duas delas t\u00eam efeitos t\u00e3o grandes quanto contraintuitivos. A primeira \u00e9 a que associa quedas sustentadas de viol\u00eancia nos EUA \u00e0 <a href=\"https:\/\/ideas.repec.org\/p\/nbr\/nberwo\/20366.html\">proibi\u00e7\u00e3o do uso de chumbo como aditivo da gasolina<\/a>, entre as d\u00e9cadas de 1970 e 1990. A segunda \u00e9 a que associa as mesmas quedas \u00e0 <a href=\"https:\/\/law.stanford.edu\/publications\/the-impact-of-legalized-abortion-on-crime-over-the-last-two-decades\/\">legaliza\u00e7\u00e3o for\u00e7ada do aborto volunt\u00e1rio<\/a> em todo aquele pa\u00eds, por decis\u00e3o da Suprema Corte de l\u00e1, em 1973. Essa segunda explica\u00e7\u00e3o at\u00e9 gozou de um pouco mais de fama, porque foi explicada em um cap\u00edtulo do <em><a href=\"https:\/\/freakonomics.com\/books\/#freakonomics\">bestseller<\/a><\/em><a href=\"https:\/\/freakonomics.com\/books\/#freakonomics\"> \u201cFreakonomics\u201d<\/a>, originalmente publicado em 2005.<\/p>\n<p>Eu reconhe\u00e7o que parece que eu inventei isso. Juro que n\u00e3o. E tamb\u00e9m juro que os dados que fundamentam essas conclus\u00f5es s\u00e3o robustos. Mas n\u00e3o precisamos ficar debatendo sobre isso aqui. Detalhar o mecanismo que explica por que a diminui\u00e7\u00e3o da exposi\u00e7\u00e3o ao chumbo na inf\u00e2ncia e a facilita\u00e7\u00e3o do aborto volunt\u00e1rio levam a redu\u00e7\u00f5es dr\u00e1sticas de viol\u00eancia vai ser assunto para outro texto, no futuro. At\u00e9 porque esses dois fen\u00f4menos n\u00e3o se ligam \u00e0 atividade de governos municipais ou mesmo estaduais.<\/p>\n<p>O mecanismo que me interessa mais nesse momento, e que tamb\u00e9m tem efeitos grandes e decisivos sobre viol\u00eancia urbana, \u00e9 outro e se conecta \u00e0 pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o urbano.<\/p>\n<div>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p>Jens Ludwig \u00e9 um professor de economia da prestigiosa Universidade de Chicago. Em 2025, ele escreveu um livro que resumo o que d\u00e9cadas de pesquisa no seu instituto dentro daquela universidade, o <em><a href=\"https:\/\/crimelab.uchicago.edu\/\">University of Chicago Crime Lab<\/a><\/em>, lhe ensinaram. Ali\u00e1s, n\u00e3o s\u00f3 suas pesquisas. Foram particularmente instrutivas \u00e0s vezes em que ele mesmo se envolveu em epis\u00f3dios de viol\u00eancia urbana com seus concidad\u00e3os, nos quais, se n\u00e3o houvesse a interven\u00e7\u00e3o de terceiros, ou se algu\u00e9m estivesse armado, ele ou outros poderiam ter sido autores ou v\u00edtimas de homic\u00eddio.<\/p>\n<p>O livro \u00e9 fant\u00e1stico. Quem se interessa pelo tema e l\u00ea Ingl\u00eas deve coloc\u00e1-lo na sua lista de prioridades. H\u00e1 tamb\u00e9m uma <a href=\"https:\/\/www.newyorker.com\/newsletter\/the-daily\/are-we-thinking-about-crime-all-wrong\">interessante resenha do livro<\/a>, escrito pelo escritor <em>bestseller<\/em> Malcolm Gladwell e publicado na revista <em>New Yorker<\/em> em meados de 2025. A hip\u00f3tese central de Ludwig deriva de um misto de teorias econ\u00f4micas e psicol\u00f3gicas conhecido como <em>economia comportamental<\/em> e que j\u00e1 gerou ao menos tr\u00eas pr\u00eamios Nobel de Economia ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Pode soltar a respira\u00e7\u00e3o. N\u00e3o vou nem tentar explicar os intricados detalhes dessa hip\u00f3tese. Talvez em outro texto &#8212; j\u00e1 estou devendo pelo menos dois.<\/p>\n<p>Ao inv\u00e9s disso, vou explicar uma consequ\u00eancia dessa hip\u00f3tese e vou pedir que voc\u00ea confie em mim que a mesma evid\u00eancia que torna a hip\u00f3tese de Ludwig correta tamb\u00e9m serve para fundamentar essa consequ\u00eancia: a de que a organiza\u00e7\u00e3o, o cuidado e o bom planejamento do espa\u00e7o urbano levam a <strong>menos<\/strong> viol\u00eancia nas cidades.<\/p>\n<p>Na verdade, a ideia \u00e9 simples: atos de viol\u00eancia, na sua maior parte, s\u00e3o mais consequ\u00eancias de tens\u00f5es moment\u00e2neas e sentimentos raivosos passageiros do que efeitos da \u00edndole ou do c\u00e1lculo premeditado das pessoas. Se esses momentos &#8212; chamados por Ludwig de <em>janelas de viol\u00eancia<\/em> &#8212; forem interrompidos, o ato de viol\u00eancia simplesmente deixa de existir. Pode ser uma pessoa que iria atacar outra no tr\u00e2nsito se n\u00e3o fosse pela interven\u00e7\u00e3o de um terceiro que acalma os \u00e2nimos; algu\u00e9m que se tornaria violento se tivesse bebido, mas n\u00e3o encontra bebida para comprar; ou mesmo uma pessoa que praticaria um roubo contra um transeunte, mas \u00e9 inibida por c\u00e2meras e luzes no bairro.<\/p>\n<p>Em todos esses casos e outros similares, equipamentos urbanos bem planejados s\u00e3o o diferencial entre uma viol\u00eancia ou uma n\u00e3o-viol\u00eancia. N\u00e3o \u00e9 por acaso que, em qualquer grande cidade, a viol\u00eancia \u00e9 desigualmente distribu\u00edda: bairros mais ricos s\u00e3o tamb\u00e9m os bairros mais iluminados, com mais gente na rua e com com\u00e9rcio e servi\u00e7os mais vibrantes. Bairros mais pobres, por outro lado, t\u00eam mais terrenos baldios, pior ilumina\u00e7\u00e3o e mais \u00e1reas degradadas.<\/p>\n<p>Outras atua\u00e7\u00f5es dos governos locais tamb\u00e9m se associam \u00e0 menor viol\u00eancia. Uma sa\u00fade p\u00fablica melhor gera menos inseguran\u00e7a e ansiedade nas pessoas, que, por sua vez, leva a menos impulsos violentos. Acontece o mesmo com (in)seguran\u00e7a alimentar. Adolescentes e jovens que t\u00eam menos supervis\u00e3o e apoio por adultos mais velhos, seja na fam\u00edlia, na escola ou na comunidade, tamb\u00e9m tem maior probabilidade de praticar atos violentos.<\/p>\n<p>Em todos esses casos, a evid\u00eancia \u00e9 a mesma: maior vulnerabilidade social se associa com maior propens\u00e3o das pessoas violentas a praticar &#8212; e sofrer &#8212; viol\u00eancia. E essa vulnerabilidade \u00e9 composta pelas circunst\u00e2ncias de vida como um todo que cercam as pessoas: incluindo o espa\u00e7o onde vivem e por onde circulam.<\/p>\n<div>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p>\u00c9 hora de voltar a Nova Iorque. Na d\u00e9cada de 1990, al\u00e9m do Compstat, a Prefeitura tamb\u00e9m adotou outra pol\u00edtica famosa, que recebeu o nome dado pelos seus te\u00f3ricos, George Kelling L. e James Q. Wilson: a pol\u00edtica das \u201cjanelas quebradas\u201d &#8212; do Ingl\u00eas <em><a href=\"https:\/\/www.theatlantic.com\/magazine\/archive\/1982\/03\/broken-windows\/304465\/\">Broken Windows<\/a><\/em>.<\/p>\n<p>H\u00e1 muito equ\u00edvoco ainda na compreens\u00e3o sobre essa pol\u00edtica, mesmo por especialistas em seguran\u00e7a p\u00fablica. Mas uma das suas proposi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas \u00e9 compreendida por todos: promover um ambiente seguro depende de sinalizar que o ambiente est\u00e1 cuidado. Onde uma janela est\u00e1 quebrada e ningu\u00e9m conserta, daqui a pouco outra ser\u00e1 quebrada. Depois, uma porta, o carro em frente do pr\u00e9dio, o poste do lado do carro, o ponto de \u00f4nibus embaixo do poste. Essa percep\u00e7\u00e3o de abandono gera locais onde os impulsos violentos das pessoas, contra coisas ou outras pessoas, n\u00e3o t\u00eam freios.<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 um c\u00edrculo vicioso: o abandono fomenta a viol\u00eancia que fomenta o abandono.<\/p>\n<p>A partir do fim dos anos 1990, os metr\u00f4s de Nova Iorque n\u00e3o eram mais pichados. As ruas da maior parte da cidade foram reiluminadas. Pr\u00e9dios caindo as peda\u00e7os, muitos deles de propriedade de \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos, foram recuperados. E as pessoas, as lojas, os restaurantes foram voltando a ocupar esses lugares.<\/p>\n<p>Nova Iorque \u00e9, de fato, um grande caso de sucesso na luta contra a viol\u00eancia urbana. Mas muito menos por causa da pol\u00edcia ou do Compstat e muito mais porque o Poder P\u00fablico local fez o que era seu dever: cuidou da cidade.<\/p>\n<p>Algo que os nossos candidatos poderiam ir a Nova Iorque para aprender.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Criado com o Nano Banana\u00ae Em 1990, Nova Iorque registrou 2.245 homic\u00eddios. Usando a m\u00e9trica internacional para a viol\u00eancia, isso equivale a 30,7 homic\u00eddios por 100 mil habitantes. Para te dar perspectiva, a taxa do Brasil em 2024 foi de 20,8; a do Rio de Janeiro, Estado de onde escrevo, foi de 22,1. 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